terça-feira, 3 de novembro de 2015

A VERTIGEM DE SENTIR

Eu tenho sonhos que morrem
Na manhã em que  você grita.
Eu vivo dos teus olhos,
Em ressaca e poesia.

Guarda pra mim um pedaço
Do teu sono
E um resto de poesia.

Vamos viver nos telhados,
Reinventando sombras
E melancolias
enquanto apodrece o dia.

domingo, 1 de novembro de 2015

AS PESSOAS NÃO SE AMAM MAIS

As pessoas não se amam mais.
Não porque se tornaram frias.
Mas porque o amor se revelou
Uma fórmula vazia.

O eu, o outro
E a chama,
Já não aquecem esperanças
E se consomem em falsas promessas.

Precisamos de coisa melhor do que o amor.
Talvez, precisemos ser mais do que somos
E menos aquilo a que supostamente
Estamos dispostos.

Que cada um se torne livre

Através um do outro....

sábado, 31 de outubro de 2015

A DECADÊNCIA DA ARTE DA CONVERSAÇÃO

Conversar tornou-se algo enfadonho e tedioso para mim. Pois é difícil encontrar interlocutores aptos ao exercício de um bom diálogo. A maioria já não tem muita coisa a dizer e reproduz os lugares comuns do dizer social cotidiano.  Quanto mais adaptadas ao mundo menos capazes de uma experiência autêntica nos tornamos; menos temos o que realmente dizer uns aos outros.

A amabilidade entre dois interlocutores já não significa que compartilham qualquer experiência autêntica, mas que falam de interesses comuns, que dominam  um mesmo discurso e co habitam uma  mesma visão de mundo e nisso se rendem a impessoalidade de um dialogo onde as coisas dominam a consciência.

Um bom dialogo é aquele em que o outro nos confronta com o desconhecido das possibilidades de nossa própria condição humana. É a diferença e o estranhamento que sustenta um bom diálogo, não a identidade.

O AMOR COMO AUTO PIEDADE


A conjunção psicológica entre dois indivíduos já se despiu hoje em dia de qualquer idealismo vazio. O intercambio entre duas pessoas se reduz a sexo e pragmatismo. Um não é o destino do outro e não há virtude que os mantenha unidos por longo tempo.

Quando se compartilha o dia a dia com alguém se tenta fugir de si mesmo e obter através da aceitação profunda do outro a  redenção das próprias limitações e defeitos.


O amor não serve para outra coisa além de um ato de auto piedade segundo as exigências conservadoras do modelo de passionalidade e subjetividade que ainda nos é ensinado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

POR FAVOR, NÃO GOSTE DE MIM

A extrojeção narcisistica é o que define nossa relação com as pessoas e o mundo.
Estamos sempre buscando o outro como medida de nós mesmos,
Tentando fugir ao fato de que somos movidos por uma vontade,
Por um impulso desesperado de sentir o outro como parte de  quem somos.
Mas isso só é possível quando não reconhecemos o outro como o distante,
O ausente,  aquele que não é parte da gente.
Quanto mais próximas duas pessoas se tornam, mais se distanciam uma da outra.
Então não tente me dizer coisa alguma, não tente entrar na minha vida.
Você jamais será especial para mim.
Não vamos unir nossos egoísmos.  Não vale a pena.
Melhor não usarmos um ao outro contra a solidão.
Ela sempre vence no final.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

NOTA SOBRE O SENTIMENTO DO EU E DO OUTRO

Quando se conhece alguém profundamente nos vemos diante de nossas misérias, de nossa patética necessidade do outro, e nos aceitamos como “eus” condenados a busca incessante do oposto, da diferença como critério de tudo aquilo que somos.
Mas o outro é também um “eu” que nos espera como  interlocutor do vazio dialético entre o que somos e o que buscamos ser contra os lugares comuns de nossos arremedos ontológicos.


Não há abrigo contra as contradições de nossa solitária existência mergulhada em incertezas e duvidas sobre a própria natureza do "eu"....

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O DECLÍNIO DOS RELACIONAMENTOS DE LONGO PLAZO

O declínio do amor romântico no mundo contemporâneo não passa apenas pela desmitificação da afetivididade,da decadência da projeção e idealização vazia do outro como objeto de simbiose e segurança emocional. Nossas sensibilidades mudaram. Somos mais autônomos do ponto de vista da consciência singularizada do complexo de um eu pessoal. Assim, ao mesmo tempo em que temos necessidade do outro, também temos cada vez mais necessidade de não depender dele, de não pressupô-lo como centro de nossa experiência subjetiva e vida privada.

Esta ambiguidade do desejo do outro, que é, mais do que nunca, o desmascaramento do “amar ao outro” como uma afirmação de si mesmo, nos torna inaptos as vazias representações tradicionais do amor eletivo. Hoje em dia somos conscientes de que o outro é um instrumento de auto erotismo, um artifício para realização de nossas fantasias e busca de prestigio social e pessoal.
A emancipação econômica e identidária da mulher na sociedade, que se radicalizou no Ocidente depois da segunda grande guerra, foi um dos fatores que mais contribuiu para desconstrução do amor e do casamento como  quase uma obrigação social.

A autonomia cada vez mais intensa do individuo e da consciência individual, a implosão dos velhos papéis sociais, norteiam os relacionamentos afetivos contemporâneos estabelecendo um dilema básico: Se por um lado, em sua formula mais generosa, tais relacionamentos tem por horizonte a construção de vínculos afetivos de longa duração, ao mesmo tempo, pressupõem a salvaguarda da autonomia individual como uma condição destes vínculos. Tais diferentes perspectivas raramente são compatíveis, o que faz com que os relacionamentos tendam a perenidade, uma perenidade que se confunde com o deslocamento de nossa condição de artífices de nosso destino. Afinal, já não estamos mais tão certos de nossas certezas e opções, principalmente no campo afetivo. Somos, de um modo geral, vitimas das circunstâncias e escravos dos fatos. Relacionamentos já não cabem em qualquer projeto biográfico sem uma boa dose de ingenuidade.