domingo, 7 de junho de 2026

AOS FINS DE SEMANA

Aos fins de semana
imagino discos voadores,
protestos, guerrilhas, 
brigas na lama e deuses decapitados. 

Aos fins de semana
fujo de passeios na praça,
do almoço em família,
para cultivar minha raiva.

Há mais raiva no mundo
do que  esperança,
há mais raiva do que vida
 nos fins de semana. 










domingo, 31 de maio de 2026

DEPOIS DE MAIO, TALVEZ EM AGOSTO



Tudo que me importa agora é poder ir embora,
abandonar velhas inércias e antigas rotinas.

Depois de maio, talvez em agosto,
eu saiba, finalmente, o tempo
das despedidas.
Pois, dentro de mim,
crescem silêncios e mortes.
Já  é quase hora de partida.



quinta-feira, 28 de maio de 2026

MINHA DOR

Minha dor nunca será  arte.
Ela é  angustia, limite e grito.
Não tem estética,
não é sublime.

Minha dor é  crua e ilegível. 
Não  é materia para terapeutas,
padres ou moralistas.

Não é sintoma,
não  é  física,
nem tem alma.

Minha dor é a vida
que se perdeu dos meus dias.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

MATURIDADE, CETICISMO E TRANSFORMAÇÃO

Passei da idade de ter razão,
de viver grandes amores e apostar no futuro.
Hoje sei um dia de cada vez,
vivo comedidamente do pouco que tenho
sem ser seduzido por qualquer paixão. 

Sei que as coisas são como são 
e não precisam de um significado
ou de uma explicação. 

Não me atrai a ilusão de qualquer verdade.
Já  passei da idade de enfeitar a realidade.
Sei que tudo decai, 
a vida é  um perpétuo Estado de indeterminação e transformação. 




quinta-feira, 7 de maio de 2026

PASSADO DISTANTE


Mora em mim um passado,
que me lembra que um dia
eu também  fui amado.

Quando eu desaparecer do tempo e do espaço,
espero que alguém, ainda se lembre,
deste  precioso e distante  passado 
em que, apesar de tudo,
eu fui amado sob um céu  azulado
de um mundo perdido e distante.



quarta-feira, 6 de maio de 2026

MEU LUGAR NO MUNDO

Meu lugar no mundo
é  o coração  dos meus entes queridos.
Mesmo que estejam mortos
e para sempre perdidos.

Meu lugar no mundo 
é o grande vazio
de tudo que foi intensamente vivido.
Existo onde a vida  não tem substância,
nem faz sentido.

terça-feira, 7 de abril de 2026

BUFÃO NIILISTA

Minha vida não  importa a ninguém. 
Minha existência não  cabe no mundo.
Quase não  existo.

Justamente por isso sou livre e absurdo.
Não  tenho moral ou ideal.
Não acredito no bem e no mal.

Vivo, apenas,  para realizar  a preguiça universal
e desprezar os que se levam a sério demais. 
Tudo que me importa é  comer, beber, cagar
e cuspir,
desconstruindo tudo que nos foi imposto como sagrado e  normal.