terça-feira, 10 de julho de 2018

CONVERSA DE SURDOS



Em amistosas conversas de surdos,
Todos falam ninguém se escuta.
Elas ocorrem todos os dias,
Em todos os lugares.

Há quem diga,
Com muita maldade,
Que elas movem o mundo....

Eu acredito nisso.

RELAÇÃO VIRTUAL



Não me interpretem,
Não me interpelem,
Não me conheçam,
Não inventem intimidades comigo!

Não gosto de sintonias e proximidades.
Afinal, ninguém sabe o outro
E muito menos sobre si mesmo.

Apenas me compreendo em solidão,
Na precariedade de alguns poucos diálogos,
Quero estar sempre a margem.

Sei que sempre sou visto,
mas nunca compreendido.

SOLIDÃO


segunda-feira, 9 de julho de 2018

QUASE DESEJO


Desejar o desejo não me faz desejante.
Vale mais o sentimento de impossível
Que se impõe a vontade e a imaginação.
Assim, o desejo não gera qualquer acontecimento.
Pode-se mesmo dizê-lo interditado,
Ausente... embora formulado.

Ainda que eu queira,
Mesmo que eu possa,
Não é o que me cabe,
Do que preciso
E, muito menos,
Aquilo que dá sentido a este momento.




quinta-feira, 5 de julho de 2018

DESENCONTRO


Uma única frase errada pôs toda conversa a perder.
De repente já não era mais possível esconder:
Nosso diálogo era feito de convenientes mentiras,
Descarada vaidade e demasiada banalidade.

Era uma perda de tempo,
Um autêntico jogo vazio de pseudo subjetivação.

Como todo mundo,
Nada tínhamos a dizer.
E isso era um bom motivo para uma conversa.


quarta-feira, 4 de julho de 2018

ALGUMAS INÚTEIS PONDERAÇÕES SOBRE A DINÂMICA DOS AFETOS



Ser afetado por alguém, lugar ou coisa, é um estado emocional bastante diverso.   Pode ser positivo ou negativo. Mas, invariavelmente, o afeto nos coloca no polo passivo. Mesmo quando somos afetados pelo afeto de alguém.

Definitivamente, em todas as situações da vida, estamos sujeitos a afetos. Eles nos surpreendem em todas as partes variando de intensidade e importância. Pode-se ser afetado por um programa de televisão, por uma mosca ou por um crime. O café da manhã, pura e simplesmente, já nos afeta enquanto experiência.

O que importa é como em cada um de nós acontecem e se entrelaçam estes múltiplos afetos. Isso faz deles agentes definidores de padrões comportamentais que norteiam nossa vida emocional.

Mas se o relacionamento direto entre afeto e emoção é mais do que óbvio, não é fácil definir onde termina o afeto e onde começa uma emoção. Afinal, a emoção não é apenas o efeito de uma afetação. É o resultado de uma equação complexa que envolve representações, objetivos e associações diversas, que definem a valoração de uma situação concreta. Por isso as pessoas podem ser afetadas de modo bastante diferenciado diante da experiência compartilhada de uma mesma situação.

O afeto é o encontro de um dentro e de um fora de nós mesmos. Ele é uma coincidência objetiva entre o eu e o mundo. Mas, ao invés de afirmar nossa subjetividade, ele afirma justamente o oposto. O afeto funciona como um deslocamento do eu, pois pressupõe sua captura. Ninguém pode “produzir” artificialmente um afeto por simples decisão racional. Pode-se apenas sofre-lo.

Por isso me parece tão ridículo como usamos a expressão “vida afetiva” para nomear nossas relações pessoais e privadas. É como se a experiência afetiva fosse uma escolha, algo domesticável,  quando ela é exatamente o contrário de qualquer cultivo.

Somos prisioneiros de nossas afetações e não são raros os problemas e transtornos que as afetações nos trazem todos os dias.



terça-feira, 3 de julho de 2018

AMAR É SOFRER


Apenas aquele que sofre a existência de alguém pode falar sobre amor. Pois o amor é falta, um saber ausências. 

O amante guarda uma recusa de si mesmo através da afirmação do outro como ideal de alteridade. 

Insuficiente ver nisso simples idealização e projeção. Há algo de uma secreta e voluntária auto recusa no ato de amar.

 Por isso o amor não realiza  uma meta ou atinge um objetivo. Não há gozo que o satisfaça.  Ele exige sempre o impossível. 

O amor é em seu movimento sem tempo e espaço, sem alcançar realização concreta, pois vive de sua própria e infinita fome. Por isso quem ama padece. 

O amor é uma doença para espíritos jovens e ingênuos. É sempre o querer do outro como auto engano.