segunda-feira, 7 de maio de 2018

POR UMA ÉTICA DA SOLIDÃO E DA IGNORÂNCIA

Tão egoísta é aquele que busca a felicidade, que faz da virtude um artificio e da vaidade um caminho!

O mesmo pode ser dito sobre aqueles que tomam o amor como um objetivo de realização pessoal e social.

Os verdadeiros justos são os indiferentes, os que não comungam de qualquer crença ou ideal de virtude.

Apenas os que se deixam levar pela existência banal, pelas coisas pequenas e efêmeras, colhem o máximo da experiência de sua finitude.

Sabem que a solidão é liberdade e o amor uma prisão. E que não há nada mais tolo do que um sábio.
Apenas o riso deve ser a medida de todas as coisas.

SOBRE O DESEJO E O QUERER





O querer é a materialização fisiológica do acontecimento de um desejo que em sua essência é uma fantasia, um ato livre e autônomo de imaginação. Esta premissa psicanalítica vale a pena ser sempre repetida e apreendida de forma heterodoxa. Pois o contrário também é verdadeiro. O desejo sempre diz outra coisa diversa do querer e por isso o gozo e o prazer são sua interdição e frustração.

Não nascemos para a felicidade....


O ENCANTO DE UMA AMIZADE



Era um amor pequeno e discreto.
Um sentimento pouco levado a sério
Que se fortaleceu com o tempo.

Nunca virou casamento
Ou se fechou em cobranças e normas,
Nunca seria aprovado pela Igreja
Ou pela moral dominante.

Era apenas um encontro entre duas pessoas,
Um momento que se duplicava ao longo dos anos,
Inventando um outro de si mesmo.

Era um relacionamento que sempre se reinventava
Como uma profunda amizade.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

PRAZER E DESEJO



O prazer não se relaciona com o desejo de forma positiva, mas de modo destrutivo. Pode-se mesmo dizer que o prazer é o oposto do desejo e seu impiedoso carrasco. Afinal, o gozo é uma margem da morte e o desejo a afirmação virtual da vida em toda a sua plenitude.

Aquele que deseja sonha, elabora, inventa mundos.
Aquele que goza se desfaz no instante efêmero do gozo, se despersonifica.

O prazer é um vício pior do que heroína. Já o desejo é libertador.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

GATOS , CASA E SOLIDÃO

Voltar para casa depois de uma curta viagem e reencontrar minha gata é uma lúdica experiência de vínculo e afeto. Ela não expressa o quanto sentiu minha ausência com a desmedida euforia de um cão. Me recebe com miados que mais se assemelham a uma queixa do que uma saudação.

Me parece, de algum modo evidente, que eu fui para ela apenas uma ausência no pequeno território do apartamento. Uma peça perdida no tabuleiro da vida. Meu retorno faz a paisagem voltar ao normal, reequilibra nosso pequeno e concreto universo existencial.

AGENCIAMENTO

O afeto inventa seu objeto.
Ou, talvez, o objeto invente o afeto.
Só não se trata de desejo.
É mais preciso falar de um encanto
Onde é impossível distinguir
O objeto do sujeito
Na abstrata dualidade de um agenciamento.

MORADAS ABSTRATAS

Aprendemos a morar na vida um do outro. Nem sei explicar direito como aconteceu. Apenas os anos passaram e, contra todas as possibilidades, continuamos juntos.

Acho mesmo,  que por pura inércia. Embora você diga e repita, que tenha sido por determinação e teimosia.

A vedada é que, felizes ou não, ainda estamos juntos e não vislumbro outra possibilidade. Habitamos um no outro. Teu corpo é meu abrigo.