domingo, 18 de fevereiro de 2024

MORTE E SAUDADE

Estamos todos condenados
a morrer de saudades.
Não importa se dos outros,
de um tempo, um lugar,
ou, simplesmente,
de nós mesmos.

Morreremos incompletos,
exilados e saudosos
de algum idealizado passado.

Morremos enterrados
em nossa auto consciência,
adivinhando ausências,
reinventando lutos e perdas
enquanto o tempo nos mata.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

ACIMA DE TUDO, ANTI FASCISTA






Sei que há momentos de ser solidário,
e outros de ser solitário e egoísta.

Há sempre de prevalecer,
entre eu e o outro,
todas as contradições do nosso bem querer
e o impulso mais anarquista.

Sozinho serei coletivista
e entre os outros 
individualista.

Mas isso não importa .
Pois, em ambos os casos,
serei ,acima de tudo, 
sempre anti fascista.







ENTRE PROMESSA E ILUSÃO



Há algo de carnavalesco,
de subversão, 
fantasia, sonho e delírio,
no enredo de nossos dias.

Algo de ilusão ...
um sentimento estranho
misturando  desgosto,
 esperança e tédio,
no labirinto de cada  existência
marginal e periférica.

Há  sempre, entre nós , alguma angústia vagando sem solução,
um desejo dessociado do gozo,
de qualquer ideal de redenção.

A vida, afinal,  é uma promessa
que nunca é cumprida,
uma eterna expectativa,
uma latência,
uma potência,
engasgada em nossa insignificância,
enterrada na solidão,
nos  silêncios e sonhos,
que dão cor e gosto ao permanente espetáculo de nossa  coletiva agonia. 

Não cabemos naquilo que vivemos,
no vagão do metrô e no ponto de ônibus,
e exigimos a liberdade de um eterno carnaval,
uma permanente promessa de fuga,
a liberdade da possibilidade 
de um quase possível amanhã sem dia.

A vida é a frustração desta promessa
que se sempre se renova.
Ela é uma grande decepção.
Mas ninguém vive
sem um generoso gole
de fantasia e ilusão.

Há algo de carnavalesco em nossas feridas expostas,
nas dívidas acumuladas
nas faturas do cartão
e falas vomitadas fora de qualquer contexto.




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

ANTI EGO

Não me entendo com meus pensamentos,
nem me rendo aos meus sentimentos.

Sou incerto, volúvel,
e sigo impreciso ao sabor do momento.

O amanhã ninguém sabe.
Mas tudo que eu quero
jamais há de se tornar realidade.


Por isso, não vivo preso a desejos ou a falacia das identidades.
Sei que meu futuro é o silêncio
de um absoluto esquecimento.
Por isso me rendo ao sono,
a preguiça e a inércia
de uma renuncia infinita
de umvprofunda e permanente
Estado de torpor e evasão.




quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

EVASÃO E DESEJO

As urgências das coisas perdidas
 ultrapassam o tempo, 
o desejo e as necessidades. 
São um afeto que nos transbordam,
 que nos transportam para as paisagens mortas 
de um sonho antigo, 
onde tudo que hoje é morto ainda persiste, 
onde brilha o impossível
 e nos ofusca o inverossímel.

A realidade não existe onde pulsa o desejo
pois a vontade é mais potente do que a realidade.
Ela é um acontecimento além da vida  da morte e do tempo.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

TEMPOS DIFÍCEIS

Todos nós carregamos saudades
que remetem a dias melhores
em tempos difíceis.

Afinal, a vida nunca foi ou será fácil.
Sempre teremos tempos difíceis
e dias impossíveis
enquanto o mundo gira.

Mas o insuportável é a saudade
dos mortos, dos vivos e desaparecidos
que, em tempos difíceis, 
nos enfeitaram a vida
e depois partiram
escrevendo na gente um grande vazio.




 


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O EREMITA VIRTUAL

Não me deixo levar
pelas comoções midiáticas,
pelos descartáveis e incansáveis debates
que não levam a nada 
a não ser a aritmética vazia das opiniões vagas.

Não me seduz a rede social,
os influenciadores digitais
e nem a lista dos livros mais vendidos
ou aclamados pela crítica especializada.

Além disso,
sei que não importa
meu juízo,
impressão ou posicionamento
sobre qualquer questão.

Não importa nada que façam,
que pensam ou que digam.
Por isso não escuto, 
não diálogo, nem opino.

Gosto de fingir que não existo,
que não estou em parte alguma.
Afinal, simplesmente,
eu não ligo...

No fundo, apenas não julgo,
não colonializo o juízo do outro,
nem quero impor ao mundo
nenhuma panacéia universal
ou solução definitiva ou radical .

Permaneço, assim, 
solitariamente,
a margem do palco do grande teatro da verdade do mundo.

Não serei solidário
a nada que pareça humano,
moderno,  civilizado e racional .