Oposto de Caos, vazio original do incriado, Eros é como força ordenadora e unificadora no quartenário primordial do universo.
Assim, ele aparece em Hesíodo e em Empédocles como um princípio de relação ou união que antecede os próprios deuses. Eros é como a premissa fundamental do mundo organizado, da passagem do caos ao cosmos. Neste sentido, ele é uma grandeza imanente, que se confunde com o jogo brutal de forças opostas que define o vir a ser da própria natureza entre o sagrado e o profano. Eros é, portanto, o pressuposto de tudo aquilo que é manifesto. Ser é composição, arranjo, encontro, relação e, como tal, expressão de Eros que, por sua vez, é esteril.
No cenário primordial além do tempo Eros e caos lembram, enquanto par de opostos cambiantes, a máxima alquimica "solve et coagula" (dissolver e coagular) que traduz a dinâmica da composição e decomposição dos corpos em laboratório durante a opus.
Na Teogonia de Hesíodo tal par de opostos é complementado por Gaia e Tártaro que formam uma segunda polaridade dentro do quartenário primordial onde as quatro grandesas sagradas coincidem entre si e dão origem as gerações divinas.
Os versos em que o quartenário primordial é apresentado na Teogonia são os seguintes:
"Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade. "
Mas os versos da Teogonia não se demoram no falar sobre o incriado quartenário primordial já que o objetivo do poema é cantar a gloria de Zeus.
Mas o eros desta versão arcaica está muito longe do Eros do banquete de Platão; filho de afrodite e daimon que age entre os deuses e os homens. Ele surge aqui como grandeza cósmica inerente a constituição de toda possibilidade do Ser e do não Ser.
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