segunda-feira, 16 de março de 2015

O LÍRIO E A ROSA


Estávamos ali, apenas eu e ela, naquele ponto de ônibus. Sua presença me chamou atenção desde o primeiro momento. E usava a indiscrição dos olhos para dizer sem palavras  meu interesse por aquela jovem ruiva e vestido vermelho que parecia destoar em meio aquele tumulto de rotina urbana.
Depois de uns cinco minutos inquieto decidi tentar começar uma prosa da forma mais desastrada possível. Respirei fundo e comentei meio sem jeito:
-Olha moça. Não quero ser inconveniente. Mas queria fazer um comentário sobre você.
-Como? Você falou comigo?- Retrucou a bela moça ruiva com o tom de voz irritado e me olhando desdenhosamente.
-Sim. Só queria dizer que você tem um rosto fora do comum...
- Não vejo o que meu rosto tem de  diferente. Tenho dois olhos, um nariz e uma boca como todo mundo.
- bem, acho que você tem cara de gente de antigamente.
-Você é louco?
- Não. Só estou dizendo que seu rosto me lembra as faces das pessoas naquelas fotografias antigas e em preto e branco de fins do sec. XIX. O que quero dizer é que parece que te conheço de alguma outra vida...
- não entendo o que você quer dizer com isso.
- Não precisa fazer sentido pra você. Só fiz uma observação que não passa de um devaneio doido e sem pretensões.
- Continuo sem entender.
- perdoe-me por incomoda-la. Mas posso saber seu nome?
-Porque lhe diria meu nome?
-Porque eu perguntei?
-Não vejo qualquer razão para dizer meu nome a um estranho que diz que tenho rosto de  gente velha.
- Mas não foi isso que eu disse...
-Então você nem sabe o que diz e ainda quer saber o meu nome.
-Pois bem. Posso lhe dizer o meu nome primeiro. Me chamo Lírio. Sei que não é o mais lindo dos nomes. Mas foi o que me deram. Desconheço os critérios da escolha. Os pais adotam critérios estranhos para escolher o nome dos filhos.
-Pois eu me chamo Rosa senhor Lírio. E acho que essa prosa sem sentido já foi longe demais.
-Penso o contrário minha cara. Vejá só: Um Lírio e uma Rosa se conhecendo em um ponto de ônibus nessa tarde linda de outono! Que mágica coincidência! O acaso conspira a nosso favor.
-Você está delirando. Isso não tem nenhum significado!
- Talvez me conhecendo melhor você posa mudar de idéia.
-Pois acho que não vale a pena o trabalho.Putz. Essa porra de ônibus que não chega!!!
-Bem vejo que meus argumentos não lhe agradam. Mas se você me der  oportunidade  lhe provar o contrário...
- Quer saber de uma coisa?!  Talvez você esteja certo quanto às coincidências aqui. Além me chamar Rosa tenho uma namorada e o nome dela é Margarida.
- Mas isso seria mais coincidência do que a necessária! Você deve estar mentindo apenas para se livrar da minha prosa.
-Você acha mesmo tão impossível assim eu ter uma namorada? Pois é a mais pura verdade. Aliais, estou indo agora me encontrar com ela..
-Tudo bem. Verdade ou não isso não muda nada. Continuo achando você muito interessante e teu rosto mágico e cativante.
Neste momento da conversa o ônibus esperado por Rosa finalmente dobrou a esquina. Ela estendeu o braço solicitando a parada do coletivo e depois foi embora sem mesmo me dizer um adeus. Assim terminou nosso flerte... Mas apesar do malogro deste dialogo, o rosto dela ficou registrado em minhas retinas. Realmente acredito que o meu fascineo pelo rosto de Rosa era expressão de qualquer expressão da sutil magia do encontro e do encantamento que podem dar sabor a vida. Eu realmente penso que ela acordava alguma coisa profunda dentro de mim que não sei explicar.
Para ela isso não passa de uma fantasia pueril e absurda. Mas acho que a própria vida é ilegível e feita de absurdos. O desafio é fazer com que eles aconteçam na maioria das vezes ao nosso favor. O que não é nada fácil. Quase o tempo todo alguma coisa vai dando errado e a gente só percebe quando já é tarde demais.
A realidade é apenas aquilo que a gente sente na cabeça da gente e cada um vive da sua própria realidade. Por isso nos desencontramos tanto uns dos outros. Como Rosa, a maioria das pessoas está pouco desposta a saber ou entender a realidade do outro...
Queria saber se ao menos ela entende a realidade de Margarida.
Deixa pra lá... O que eu quero mesmo é saber destas flores murchas neste meu jardim que já virou um desolado deserto.



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