sexta-feira, 5 de abril de 2024

A PARTE MALDITA

Uma parte de nós 
Ignora a  sociedade,
a noite e a aurora.

Não se importa com o mundo,
sabe que tudo é absurdo,
não tem arrependimentos,
nem carrega memórias.

É uma parte que  odeia, ama ou ignora.
Só sobrevive, tem apetites,
Caprichos, vontades,
e quer sempre acumular vitórias.

É nossa parte maldita,
esquisita, vergonhosa.
Mas é também 
aquela que melhor nos define
diante da dor e da vida.

É nossa parte que sempre sobrevive
contra nós mesmos,
a que impiedosamente resiste
e enfrenta o mundo.

É aquela que nunca se importa,
aquela que sobra, que sofre,
que grita.








quinta-feira, 28 de março de 2024

ESTUPIDEZ


Somos todos estúpidos
em alguma medida.

A estupidez é inerente
a condição humana
e todo mundo diz ou faz
alguma coisa estúpida
todos os dias.

Mas é estúpido falar sobre isso.
É estúpido pensar no quanto
somos estúpidos.

No fundo, a estupidez é uma politica de Estado
e também a medida de nossa mais íntima e inalienável ignorância.

Ao longo dos séculos
fizemos do mundo 
um lugar muito estúpido
e temos nos tornado
cada vez mais estúpidos.

Um dia nossa estupidez 
há de por fim em tudo.
Ou, talvez, a estupidez
seja o segredo do amor
e da felicidade universal.



sábado, 9 de março de 2024

MEU PASSADO

Meu passado foi a
permanente espera 
por  um futuro sempre adiado.

Foi sucumbir a ilusão,
a esperança
e a indiferença
em total confiança
nas coisas que passam
e na vida que segue.

Foi acumular saudades
de mim, dos outros,
e de alguns lugares.

Foi apostar no dia seguinte,
acreditar na colheita vindoura
e envelhecer de mãos vazias.

Meu passado é um futuro que nunca chega.
É uma morte que ainda me espera.


quinta-feira, 7 de março de 2024

O MUNDO NÃO CABE NA PALAVRA MUNDO

O mundo é natureza e imanência.
Um misto de acaso, 
  e improviso
onde tudo é mudança e conflito.

Esqueçam todas as leis da física.
Duvidem da realidade,
de toda regularidade
e fenomenologia do Espírito.

O mundo é feito de vida e morte,
mudança e incerteza.
Não respeita qualquer matemática
e nem  cabe
em nenhuma definição de mundo.
O mundo não pode ser reduzido a palavra mundo.

terça-feira, 5 de março de 2024

REBELIÃO & RENÚNCIA

Foi ficando pelo caminho
a esperança de tudo dar certo,
 a certeza de um destino
 e a coragem de seguir
em frente.

Foi crescendo contra o progresso 
uma angústia,
um desespero, uma revolta,
uma vontade de ser ou fazer diferente,
de me afogar em goles de vinho tinto
contra todas as verdades
que me obrigavam a tola ilusão
de ser lúcido e inteligente.

Desisti, então, finalmente,
de ser racional e prudente,
 pacífico e obediente.

Tornei-me, então,
indiferente.
Abandonei o tempo,
o caminho,
e a necessidade  de fazer sentido.

Fui plantar caos & cores nas margens da vida,
criar conflitos, confrontos e confusões,
contra a realidade
até que o mundo inteiro se torne outra coisa
despido de tantos fascismos.




segunda-feira, 4 de março de 2024

EVASÃO & NOSTALGIA

Aquilo que eu mais queria
era poder reviver meus melhores dias.
Cobrir de eternidade o fragil tempo dos meus passados
e saber o amanhã sem o peso de tanta nostalgia.

Queria reviver meus mortos,
ignorar os vivos,
o futuro, os silêncios
e tormentos
de uma existência
assim tão vazia.

Queria mesmo
não ser jovem,
nem estar velho.
Saber o corpo,
dos outros e do mundo,
como uma unidade perfeita
entre ação e desejo.

Aquilo que eu mais queria
era abandonar a realidade,
não  tomar de mim
mais qualquer conhecimento.

Deixar a memória 
inventar dias distantes
de lazer e alegria
onde eu possa sonhar
antes do fim do mundo
uma existência plena
de pura banalidade
e profunda poesia.



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

DA CONTRA IDÉIA DO BELO

O belo não é bem,
não é bom.
Não é equilíbrio
ou perfeição
Acessível pela contemplação.

É só ilusão,
transição,
des-razão.

As vezes,
ele é 
até transgressão,
agressão,
paixão e revolução.

O fato é  que o belo não é bem,
não é bom.
É  ilusão
e falta de imaginação.

Pode ser relação,
possessão.

Há quem diga que o belo
só existe nos olhos de quem o vê,
não passando do curioso efeito
de algum tipo espontâneo de embriaguez
na mente de quem nele crê.

O fato é  que o belo
 não é nada daquilo
que defendia Platão.
O belo é uma mera invenção moral.
Uma convenção.