quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MIRAGEM

Nada é mais natural do que estar sempre ao seu lado,
Viver cada momento banal como se fosse especial.
É uma questão de como vemos e sentimos o mundo.
Tudo que precisamos é estar juntos.
Nada precisa ser real, concreto.
Faremos de conta de que o amor existe,
Que somos felizes.

Tudo que temos é a nossa ilusão.

PREGUIÇA QUASE METAFÍSICA

Estou disposto a me render.
Vou desfazer o rosto,
Desacontecer nos dias
Até o ponto de não ser.
Anteciparei a morte
No vazio de todas as sortes.
Não serei nada,
Não farei nada.
Esqueçam todas as palavras
Que estavam guardadas
Para uma ocasião especial.
Cada momento é banal,
Estupido e raso.
Nada vale o esforço.
Irei ficar aqui deitado

Até o fim do mundo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A EMOÇÃO DA LETRA

Escreva sem medo tudo aquilo que dói.
Entrega sua voz ao que te perturba.
Não tenha pudor.
Dispense a razão.
Escreva com selvageria
Até fazer a folha gritar.
Não é difícil
E o alívio é garantido.
Escreva como quem grita,
Como alguém que chora.
Mas não sinta tanto.

Deixe o sentir na palavra.

CASAL DE VERÃO

Nunca tivemos bons motivos
Para querer um ao outro.
Éramos estúpidos e impulsivos,
Vaidosos e carentes.
Fizemos o que era possível
Para viver juntos.
Mas  entre nós
Não havia sentimento suficiente,
Carinho o bastante
Para imaginar uma vida inteira.
O tempo passou a toa.

Hoje não mais nos conhecemos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

DISTÂNCIAS

Ontem você estava triste e distante.
Hoje se quer te conheço.
Nunca soube lidar com suas constantes variações,
Com seu labirinto existencial.
Quantas de você, afinal, existem?
Há uma que gosta de mim.
Mas muitas que só me suportam.
Como posso saber em que momento
Devo abrir a porta?
Por isso me distraio
E me perco na praia

Onde você nunca me encontra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

VIRTUDES DA SOLIDÃO

O anteparo abstrato da solidão
Impede a visibilidade dos outros,
Repele os intercâmbios ociosos
E me liberta do peso das opiniões.

Gosto de estar sozinho,
Sempre  distante,
Enquanto as pessoas passam
E o dia se esgota em fatos rasos.

A solidão é meu privilegio,
A liberdade da ilusão do outro.


CONTEMPLAÇÃO

O olhar desatento da passante
Ignora o admirador silencioso
Que em seu rosto adivinha histórias.
A fantasia importa mais que o desejo
Em seu observar ingênuo
Onde se destila a ilusão de olhar.
Naquele instante ela era todas as mulheres,
Existentes ou não.
Era mais uma miragem do que uma tentação.
O admirador não sabe o que vê,
Saboreia a visão.
Depois esquece e segue sua vida.